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Jorge Ben-“A Tábua de Esmeraldas” 


Resenha publicada no jornal Hoje em Dia em 16/09/2004 

Jorge Ben é uma espécie de eminência parda da MPB: festejado por todos os outros grandes nomes como Caetano Veloso e Milton Nascimento, mas dono de discreta trajetória junto ao grande público. Não é muito difícil de entender: ele sempre se situou como um corpo estranho – mas nem por isso mal recebido – na cronologia da música popular brasileira. Uma terceira margem cuja mistura de “samba com maracatu” não era bossa, não era uma brasa, não era proibido proibir.Falamos aqui do Ben, não confundir com o Benjor: apesar de algumas fagulhas, este último está longe de alcançar o fogo do primeiro. A obra de Jorge anterior a formação de sua Banda Do Zé Pretinho (eficiente nosbailoes a que se propõe, mas notadamente pouco ousada)é brasa que ainda queima, onde encontramos os desenhos mágicos do seu violão, a simplicidade poética de seu texto, o lirismo doce de suas musas. 

O pulo do gato de Babulina era a ponte radical entre o violao gilbertiano e as batidas suingadas oriundas do rock, contruída por um dos maiores mistérios da mpb: a mágica mão direita de Jorge, mão em que ele palhetava suas batidas no violao. E o violão de Ben desenha jazz, maracatu, samba e outras bossas mais. É fonte que não seca: a classificação de sua música é tão absurda quanto o espectro de músicos que influenciou – das baladas folk arcadistas de Nando Reis ao rap emcarne viva dos Racionais MC’S.

Em “A Tábua De Esmeraldas”, o salto foi mais alto: o disco é seguramente uma das obras mais desconcertantes da música popular brasileira, e assim como o disco de estréia de Ben (o didático “Samba Esquema Novo”), estabelece alguns parâmetros até então inéditos nesta. O cotidiano banal vinha em cores bonitas sob a ótica de Ben: o “Namorado Da Viúva”, “O Homem Da Gravata Florida”, narrativas que resvalam no absurdo em sua simplicidade. O habitual romantismo brota da pureza (“Minha Teimosia”, de harmonia semelhante a “Lay LadyLay”, de Bob Dylan), do desejo carnal (“Menina Mulher Da Pele Preta”), da urgência ( na sublime “Cinco Minutos”).

O misticismo. Faz também política, seja no pacifismo popular de “Vou Torcer”, seja na épica eengajada “Zumbi”. O misticismo que (des)norteia o disco bate bonito em “Os Alquimistas Estão Chegando” e na louvação “Brother”.Mas alcança seu ápice mesmo no dubbismo de “Errare Humanum Est” (“E de pensar que não somos os primeiros seres terrestres/ Pois nós herdamos uma herança cósmica/Errare humanum est”), que é onde está a chave para se perder nesta tábua repleta de esmeraldas. Assim com o alquimista francês Flamel que ilustra a capa do disco, Jorge Ben fez da tábua de esmeraldas sua pedra filosofal: tudo aqui é ouro.

Treat Her Right- “Tied To The Tracks”

TREATHERRIGHT 

Resenha publicada no jornal Hoje Em Dia, em 02/09/2004

Quando morreu em cima do palco em Palestrina, Itália, fulminado por um ataque cardíaco enquanto executava a sintomática “Super Sex” ( “Taxi!/Taxi!/!Hotel!/Hotel!/I got the whiskey baby, i got the whiskey/ I´ve got the cigarettes…”), Mark Sandman levava consigo também uma obra particular que corria paralelamente à música vigente na época.

Na metade dos anos 90, quando o pop estava extremamente derivativo, o Morphine era uma espécie de gota pura em um oceano de ruído, uma banda que conseguiu imprimir uma marca pessoal tão profunda quanto suas densas músicas. Assim como o ópio que serviu de inspiração para o batismo da banda, a mescla de bateria ,sax e baixo tinha a rara capacidade de sedar ouvidos mais combalidos, transportando o ouvinte para um universo liricamente barra pesada, mas embalado por uma música extremamente agradável , baseada naquilo que o próprio Sandman classificou como low rock- uma sonoridade em que o barulho vinha em baixos teores , e a instrumentação era esparsa e elegante. 

O Treat Her Right foi o laboratório paras as experimentações de Sandman, que viria ajudar a formatar o som que fez sua fama anos mais tarde. “Tied To The Tracks”, segundo e derradeiro disco da banda , é Sandman de melhor safra, servido puro, sem gelo. Dividindo as composições com David Champagne, líder e fundador da banda e contando com o apoio do baterista Billy Conway, que iria acompanhá-lo no Morphine, a voz grave de Mark, filtrada em nicotina e álcool, vai tecendo climas ideais para ambientar uma hora vagabunda, regada a sexo, drogas e emoções baratas.

Sempre sob o signo do blues, as composições aqui são pautadas em slide, gaitas e linhas econômicas de guitarra. Entre canções assustadoramente premonitórias, como “Picture Of The Future” (“Este é um retrato do futuro/ E você não está nele”), se destacam faixas que trazem marcas registradas de Mark, como a morbidez romântica de “Marie” e o groove sensual de “Junkyard”. Acima de todas elas, a obra –prima “No Reason”, coda perfeita para aquela inútil noite italiana de 99: “Não há razão nesta vida/ Alguém vive e alguém morre/ E isto não deveria vir como uma surpresa”. 

Ryan Adams- “Rock N´Roll”

Resenha publicada no site do Alto Falante em 10/12/2003
Alguém como Ryan Adams lançar um disco intitulado “Rock N´Roll” é extremamente perigoso. Quer dizer, batizar um trabalho com um título que abarca todo um gênero é um risco para qualquer artista, mas, no caso de alguém que faça um trabalho bastante derivativo como o de Adams, aí é um prato cheio para os críticos de plantão. Porque, desde que embarcou em carreira solo, Ryan Adams tem colecionado olhares de desconfiança por todos os lados: seria ele um picareta completamente despersonalizado, que atira para todos os lados na esperança de atingir o público-como julgaram os detratores do sucesso “New York, New York?”
Ou Adams seria o compositor de extremo bom gosto e pretensões poéticas que muitos estão esperando há bastante tempo? Não é com “Rock N´Roll” que a pergunta é respondida. No trabalho continuam implícitas as pretensões de Adams:o refinamento lírico de Bob Dylan, a sonoridade Young angry man dos Stones além de outras referências claras aos grandes nomes do rock- Iggy Pop e seus Stooges na raivosa “1974”, os títulos de “Wish You Were Here” e “She´s Lost Total Control”…E a partir dessa referência ao clássico do Joy Division, “She´s Lost Control”, que os críticos podem carregar a cartucheira de balas: o alvo da vez dos tiros musicais de Ryan Adams são os tão em voga reeditados sonoridades dos anos 80 atualmente- escolha que vai de encontros com o som de bandas bem faladas atualmente, como Strokes e Interpol-, mas especificamente os Smiths.
Se na faixa de abertura de seu primeiro disco solo “Heartbreaker”, Adams gravara um diálogo entre amigos onde o tema era qual o melhor disco de Morrissey em carreira solo, ele parece agora querer retomar essa conversa e vai fundo na sonoridade do inglês em canções como “So Alive”, “Anybody Wanna Take Me Home” e “Burning Photoghaphs”. Mas mesmo assim, despersonalizadas-assim como parece ser o padrão da boa música nestes nostálgicos anos 2000- ainda perfazem um conjunto de canções bem mais interessante que a maioria.
Tudo bem, “Rock N´Roll” não é tão certeiro quanto anteriores como “Gold” e “Heartbreaker”, mas ainda assim poucos discos hoje abrem com uma música tão angustiantemente boa quanto “This Is It” e seu explosivo refrão (outra referência: agora aos novatos Strokes), e já no finalzinho trás um trazem pop ensolarado como “Boys”. Ryan Adams pariu três frutos musicais em 2003: o primeiro foi prontamente renegado pela gravadora Lost Highway, com a absurda justificativa de que os dois volumes de “Love Is Hell” seriam por demais depressivos. Já, “Rock n´Roll” é o filho pródigo, recebido de braços abertos, embalado perfeitamente para o fácil consumo do mercado. O que não é demérito nenhum, diga-se de passagem-poucos artistas sabem escrever canções pop tão bem resolvidas quanto Mr Adams. Apesar de prontamente despersonalizadas, como parece ser a regra do mercado atualmente.