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Esses gauleses irredutíveis

Dia desses, em São Paulo, conversávamos sobre as melhores coisas saídas do Rio Grande do Sul, assim, de supetão e sem muita cientificidade (falávamos sobre as piores também, mas não é o caso). Em formato lista, é claro. A motivação, se bem me lembro, foi a presença de uma gaúcha na mesa, além de recém-conquistada e iluminada vitória do meu time em um jogo contra o Inter em Caxias do Sul.

Acho que foram citados na meses os nomes de Renato Portaluppi, Elis Regina, Caio Fernando Abreu, Nei Lisboa, os Veríssimos, Vitor Ramil… E dois nomes quase unânimes: Apanhador Só e Engenheiros do Hawaii (ou Humberto Gessinger. Com todo respeito, é uma unidade mesmo)- “os primeiros discos”, me lembro de alguém (eu?) frisar.

De volta à Belo Horizonte, estes dois últimos nomes da lista se colocaram à prova na mesma semana, em um intervalo de dois dias,  o que seria uma grande chance de comparar/estabelecer/provar, algora com parâmetros mais, científicos, o status gauchíssimus maximum que eles receberam na nossa confraria nick hornbyiana. Achei que era muita sorte e parti para o estudo de campo. Afinal, quem sabe faz ao vivo, e estávamos diante de dois exemplares comprovadamente bons de palco, a partir de experiências anteriores.

Mais do que isso, era a oportunidade de estabelecer mentalmente uma espécie de arco histórico do rock gaúcho, aproximando aquele que pode ser o seu maior símbolo- Humberto Gessinger- e o seu mais notável novo valor, os meninos do Apanhador Só. Chance boa para elaborar teses, anti(teses) e possibilidades geracionais, conexões RS-MG, etc. E também se divertir um pouquinho, como não?

Porque Apanhador Só é, antes de tudo, divertido. Sim, é brilhantemente pretensioso, “difícil”, abrangente, multidisciplinar; não se furtam de riscos, mudanças de andamento, letras intrincadas, e muito daquilo que os programadores de rádio, com seus ouvidos engessados, chamariam de “anti-comercial”. Mas por cima de tudo isso, acopla-se uma bela banda de  rock, com bons músicos, cientes do coeficiente “fun” fundamental para a chancela pop.  Não é porque tem, aham, conceito, que deixa de falar ao entretenimento (uma lógica vice-versa em zilhões de coisas espalhadas por aí).

Mas é claro que chama a atenção, e é muitíssimo bem vindo, os exercícios de expansão mental e musical dos guris. É como se pegassem o bastão de algumas propostas expostas no “Bloco do Eu Sozinho” (especialmente em faixas como “Cher Antoine“) e expandissem ainda mais, tensionassem a canção- e eles tem um caminhão de boas canções- no sentido de desconstrução, da possibilidade de estragá-la, até nascer, luminosa, uma outra coisa.

“Melhor despirocar de vez”, resumem em uma de suas canções. E é essa um pouco a ética que pode reinar para os músicos ou para quem trabalha com criação hoje em dia: o que nos sobrou foi a liberdade, portanto que façamos disso uma missão. Não tem nada de exatamente heroico nisso, parece simplesmente lógico, o caminho são todos os caminhos. E pau no cu de quem não quer.

Mas, curiosamente, Apanhador Só é rock com vocação para arenas, espaçoso, com nuances, detalhes. Ótimas ambiências para grandes ambientes. O último show da banda por aqui tinha sido em um espaço muito adequado, um grande teatro- e foi sensacional, com o difícil reposicionamento de sua última leva de canções sendo levadas com maestria no palco.

Como eles- melhor, as canções- se comportariam no pequeno palco do CCCP?

(E vale um pequeno parêntesis para a louvável, espetacular iniciativa da casa de, em tempos de vacas magras, bancar um festival trazendo bons nomes de fora do estado, fora daquele esquemão que conhecemos bem. É sempre delicioso e saudável ver e ouvir música “independente” em pequenos espaços, com condições OK de som e, principalmente, um público interessado)

Tendo tudo isso em vista, dá para cravar que tudo transcorreu bem. Casa lotada, um certo clima de importância (é a dona do melhor disco nacional de 2013) e oportunidade (tocando numa proximidade vaporosa) solto no ar e, a despeito de possíveis ( não fiquei anotando…) “emagrecimentos” nos elaborados arranjos, tudo soou bem. E , de novo, divertido: por mais que a etiqueta da inteligência esteja pregada em cada acorde tocado pelos caras, Apanhador Só, meio nu ali naquele palquinho, reafirma que eles ainda são a banda que apareceu com a cirsense/non-sense “Maria Augusta”, com a poética “Prédio”; que no meio das trovoadas presentes em “Antes Que Tu Conte Outra” arrumam espaço para a deliciosamente desimportante (e hit potencial) “Torcicolo”.

E ela, assim como “Vitta, Ian e Cassales”, “Cartão Postal”, “Por Trás”, foram executadas com pilha grande, recebendo aprovação do público, do mesmo jeito. Como se, satisfeitos, eles também atestassem: todos os caminhos são possíveis.


Nós falamos em hit potencial? Bem isso não existe no universo de Humberto Gessinger e seu público. TUDO que o cara canta soa como hit, sem virtualidades. A simbiose entre o músico e sua platéia é quase um clichê, mas, bem, Humbertão adora, liricamente e até musicalmente, brincar com os clichês certo? Não parece tomar isso como ofensa, pelo contrário,  parece se deliciar com isso, com as repetições, formatos, questões já cristalizadas no universo pop, cometendo suas pequenas perversões e piscando de lado para o imenso público que o acompanha.

E o público adora que ele faça isso. Essa cumplicidade, suspeitos de um crime perfeito, é um dos segredos de uma relação que dura décadas, e que não dá nenhum sinal de esmorecer. Aliás, que esmorecer o que? O Chevrolett Hall, com seus ingressos esgotados há semanas, recebeu um público que colocaria “blockbusters” midiáticos no bolso (vide Demi Lovato, semanas atrás). A histeria era comparável também, nos gritos, palmas, no VOLUME de afeição que aquele lugar emanava. Toda canção é cantada pelo público em ritmo de torcida, de Gre-Nal em final de Libertadores imaginária, com as torcidas em comunhão.

Daria pra falar em espetáculo à parte, só que não: é tudo uma massa só, tiozões que ainda hoje acariciam os vinis de “Longe Demais das Capitais” ou “Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém” com a molecada que carregava bandeiras do “Insular”, seu último disco. Bonito notar que um deles dividia generosamente o palco com Gessinger. Tavares, ex-Fresno e agora solo como Esteban, não só assumia porções vocais, mas como também segurava, surpreendentemente bem, as guitarras do show, dentro do formato trio que parece ser a escalação ideal de Gessinger. Claro, ele não tem o élan tétrico pós-punk/ hardrockeiro dos anteriores (principalmente o “mítico” Augusto Licks), pendendo muito mais para o segundo lado. Mas, pô, se o próprio chefe não se furtou de encavalar seu baixo de pernas abertas- à lá Steve Harris- e sacodir a cabeleira loura, porque o moleque iria se conter?

Juntando essas pecinhas, se estabelecem algumas diferenças entre, não só Humberto e Apanhador Só, mas entre as gerações do rock nacional dos anos 1980 e dos anos 00, onde são, respectivamente artistas exemplares. Humberto cultivou alguns dos insumos maiores no universo da produção artística: a inquietação e a independência, aliados a um interesse do público em acompanhar esses seus ganhos. O Apanhador Só parece já ter nascido com essa coceira criativa, no sentido de não ter obrigação nenhuma com algumas das lógicas do mercadão. Humberto fez parte e ajudou a construir um universo que não existe mais, e soube sabiamente sobreviver a tudo isso; o Apanhador não parece viúvo dos destroços: está na verdade, construindo um novo de acordo com outros parâmetros, que eles mesmo estão criando.

Se ambos estão sendo, na medida do possível, e em réguas diferentes, bem sucedidos, deve ter a ver com aquela história do gaúcho ser o povo mais inteligente do Brasil, sei lá.

É engraçado: seria muito fácil estabelecer muitas outras diferenças entre as duas gerações. Mas saí dos dois shows gaúchos traçando mais paralelos do que fronteiras. De alguma forma são ilhas- uma independente, recém-nascida, outra como um território estabelecido, mas ainda sim autônomo- que não se curvam às lógicas comuns da produção musical. Que perceberam (talvez no caso de Humberto, desde sempre) que o negócio é fazer o que tiver afins, porque, ele sabe muito bem, é um baita negócio acompanhar o artista, ganhar em troca a fidelidade, uma moeda forte no mercado.

Não nos esqueçamos: disco e alguns shows do Apanhador Só foram feitos via crowdfunding. E, em “Insular”, disco que Humberto lançou ano passado, o CD vem autografado pelo músico, personalizado com o nome do comprador.

E no campo artístico, de criação, me pergunto: será que Gessinger também já não fez seu(s) “Antes Que Tu Conte Outra”?  Lá em “Várias Variáveis”,  no distante 1991? Ou no belo e estranho “Gessinger, Licks e Maltz”? Se bem que a sensação que tenho é que, para todo fã “de fé” de Humberto, todos os seus discos são seu melhor, todos são transgressores, todos fazem parte de um território dissidente do modus operandi padrão do circo pop.

E será que Alexandre Kumpinski e sua turma não fizeram suas canções gessengerianas, como “Por Trás” ou  “Cartão Postal“?

Pra usar um simbolismo: a cobra às vezes, sem nem perceber, sai mordendo o próprio rabo.


Ah, e claro, o show, para além dos outdoors óbvios e afetivos da relação público/artista, serviu para provar…provar não, que, na boa, aposto que ele caga pra isso, mas para mostrar que Gessinger é, antes de qualquer coisa, um grande artista. Se não existem critérios exatos para definir o que isso significa, uso algumas palavras como muleta explanatória: trabalho, honestidade, tentativa, conexão, talento, beleza, propósito, transparência, opacidade, luz, mistério…Toda essa confusão subjetiva para afirmar que, do meu ponto de vista, o trabalho de Humberto preenche boa parte destes requisitos, em maior ou menor grau.

E tem uma coisa que ainda torna a coisa mais instigante, aquela lógica “Zico” e ” Copa do Mundo”: se o Galinho não levantou essa taça, problema da Copa. Em termos gessengerianos: e a crítica não gosta, problema da crítica. Não é nem discutir qualidade, é levantar a bola de uma postura assumida por ele que creio ser deveras interessante, cada dia mais, principalmente em tempos onde o aparecimento midiático, cada vez mais, parece ser o estatuto principal da humanidade. No lotado teatro da visibilidade sem vínculo ou lastro, o cara escolhe e consegue um ginásio lotado de fiéis, que se lixam se o rádio não toca, se o jornal não dá, se não é o queridinho da vez.

Algo me diz que eles todos fizeram uma boa escolha.

Guardadas as devidas proporções, é  como Mikal Gilmore escreveu sobre o Greateful Dead, em seu espetacular “Ponto Final” (Cia das Letras): “Uma ampla associação de fãs, organizadores e divulgadores informais que cercavam a banda e a promoviam como o centro de uma comunidade mundial de idealistas. Mais do que isso, essa comunidade prosperou sem o envolvimento ou o apoio da indústria ou da imprensa especializada“. Gessinger também tem seus deadheads, e esse culto segue impressionando os que chegam estrangeiros ao seu show.

É, não consegui fugir do “fenômeno”, não falei ainda sobre a coisa em si: o cancioneiro desfilado em noite de gala (gravação de DVD e tals) mas trajadas de forma absurdamente simples.  Foi daqueles passeios, cheios de greatest hits para os fãs e canções obscuras para aqueles que encoleiraram a obra do músico nos flashbacks oitentistas. Não que algumas dessas não deram o ar de sua graça; teve “Terra de Gigantes”, “Sonhos que Podemos Ter” (numa interessante versão, meio Zé Ramalho), as fossas fim de noite de “Piano Bar” e “Refrão de Bolero”…

Mas, para ouvidos incultos, o repertório parecia repleto de “inéditas”, passeios estilísticos entre o folk, o rock linha dura e as tentações prog ( mais timbrísticas que estruturais), tesouros de seu cancioneiro que, ali, ficam desamarradas de lógicas comuns, casos de “A Ponte Para O Dia”, “Pose”, “Surfando Karmas e Dnas”, “Dançando no Campo Minado” ou  as belas “De Fé” e, especialmente “Dom Quixote”. E particularmente achei notável e sintomática a inclusão da rushiana “Exército de Um Homem Só”, já no finalzinho do show.

Aliás, essas duas últimas canções citadas, distantes mais de década de seus lançamentos, soam com perfeição como hinos da possibilidade existencial de Gessinger- a distância temporal entre elas apenas reafirma esses vínculos. “Exército…” chega a ser caricatural de tão colada, de tão auto-explicativa: “Não interessa o bom senso diz /Não interessa o que diz o rei (se no jogo não há juiz 
Não há jogada fora da lei) /Não interessa o que diz o ditado 
Não interessa o que o estado diz/ Nós falamos outra língua /Moramos em outro país”.  O tom grandioso, épico da canção, apenas ajuda no seu caráter celebratório; é de um autismo quase anarquista, é a potência do não em pleno funcionamento. 

Mas é na linda “Dom Quixote”,  que a cobra, finalmente, alcança o próprio rabo. Mais do que isso: fala ao coração de quase qualquer músico, qualquer banda independente hoje no país. Do prazer em ser otário, de estar fora do páreo; dos grandes negócios e das pequenas empresas. E acima, de tudo, de fazer as coisas por amor, mesmo que seja por amor às causas perdidas. Humbertão, não sei quantos anos de carreira, parece praticar esse lema em cada verso que canta, em cada nota que disfere em seu baixo.

Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos mas sempre no horário
Peixe fora d’água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro sangue, puxando carroça

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra,
Vaidades que a terra um dia há de comer.
“ás” de espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário.

Muito prazer me chamam de otário
Por amor às causas perdidas.

Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas

Talvez sem saber- ou ao contrário, plenos de sabedoria- é isso que os meninos do Apanhador Só estão fazendo também. Da platéia, sigo achando um bom negócio. É aquele papo, de novo, dos gaúchos serem o povo mais inteligente desse país…

 

 

 

“Good as fuck”, mas só poderia ser assim- Afghan Whigs ao vivo em São Paulo

Ninguém sabe usar a palavra “baby” como Greg Dulli. Sua obsessão adorável pelo termo parece o diapasão razoável para medir um pouco de sua importância. O cara conseguiu um léxico próprio para um termo que periga ser o mais usado na história do rock. Vamos combinar que isso já é coisa pra cacete.

E não foi de graça: teve prisão, cocaína e balcões de botecos a dar com o pau para o cara aprender o chaveco correto. Afghan Whigs, de certa forma, é o supra sumo do white trash norte-americano, mas com um irresistível molde sofisticado que deixa a coisa toda menos “cerveja” e mais “vinho tinto”, digamos assim. O equilíbrio é a chave da cantada.

Pense: o grande herói de infância/adolescência do cara é Steven Tyler, do Aerosmith. Me lembra um pouco a historinha da irmã de Sheakspeare: se Tyler foi a versão “putaria” do escritor inglês, Dulli foi seu irmão, talentosíssimo mas obscurecido-o que de certa forma justifica o pequeno público presente no show em São Paulo.  Se Mark Sandman, outro gigante dos anos 1990, talvez tenha escrito a letra definitiva sobre o sexo casual, de uma noite só, Dulli fez disso suas obras (quase) completas. Chegou ao cúmulo de se dizer um sujeito com “um pau ao invés do cérebro”, tamanha sua obsessão com o tema. Um missionário fervoroso- e, sim, estamos falando basicamente da clássica posição.

Afghan Whigs é o território onde as mulheres são “coelhinhas” ou “anjos”; onde Marvin Gaye é o papa supremo; onde carros, gasolina e fogo dispensam maiores metáforas; onde o sexo é, em suma, tudo. E, claro, é onde a palavra baby é a súplica, é o embalo, e é o agradecimento final.

Poderia ser uma merda, uma coleção tosca de cantadas de fim de noite, de humor de vestiário. Mas é absolutamente genial, é rock n´roll no seu sentido gloriosamente original, it´s good as fuck.

Vejamos: de Tyler, Dulli herdou um pouco do timbre e da garra incomparável no gogó; herdou também a necessidade de equacionar o barulho do rock hard roqueiro com a pulsão sexual imbatível da soul music. Talvez possamos dizer que sua conta puxou mais para o segundo lado: ninguém entendeu os valores (e eles são grandes, imensos) da Motown, do Philadelphia Sound e até mesmo da Disco Music que ele, nos anos 1990.

“Éramos do mundo da cocaína, enquanto resto era da heroína”, declarou certa feita, separando com precisão sua banda do extenso corredor grunge do qual passaram, de raspão (o negócio dos caras sempre foi terno e blusa social, e não camiseta de lenhador). Sabe a capa do “Congregation”? Pois então, é isso. O cara é um menino branco que encontra sua redenção no colo da musa negra. Taí uma boa metáfora para os Afghan Whigs.

No Brasil, os Whigs foram mais uma daquele gigantesco rol de grupos que foram apresentados pelo público via MTV, possívelmente no didático Lado B, ou em um daqueles programas vespertinos. Portanto, natural que fossem embalados embaixo daquele enorme (e meio desconexo) guarda-chuva chamado “rock alternativo”.

O que pega é que eles são muito melhores que isso. É uma das porras das bandas mais COOL do planeta, desde sempre.

“Congregation”? COOL

“Gentlemen”? COOL

“Black Love”? COOL

“1965″ ? COOL.

As letras de Dulli? Sua performance vocal? As linhas de guitarra maravilhosamente bem trabalhadas? A chuva de wah-wahs que (des) penteia boa parte do repertório dos caras? O baixão sinuoso, como que despindo alguém? Os violinos ocasionais? A melhor cover de todos os tempos?  As capas dos discos? COOL COOL COOL COOL COOL COOL COOL COOL COOL !!!!!

O novo disco é ok, com alguns momentos muito COOL (“Parked Outside” e “The Lottery”, apresentadas no show, entre eles), mas já cumpriu sua missão ao servir de desculpa para trazer os caras a estes trópicos.


Alguns amigos vieram me perguntar, dias depois, como era o lugar onde a banda se apresentou, o Audio. Se era legal, espaçoso, o som, etc. E não tive a menor idéia do que responder. Como avisei ao parceiro Bruno Capelas, quando entramos no lugar (duas músicas atrasados, sacrilégio, mas culpa do papo bom), “tô indo lá na frente tietar um pouquinho”.

Depois de alcançar um bom lugar, não consegui despregar os olhos do palco. Portanto, só sei do que aconteceu no palco. E o que aconteceu foi um PUTA de um show de rock, daqueles que guardo na retina, no HD mental e no suor que colava à camisa no final.

E, sinceramente, não me lembro de um show que me fizesse “dançar” tanto. É música libidinosa, e é barulho para os quadris. Emendadas “Fountain and Fairfax”, “The Lottery” e “Debonair” (“Hear me now and don’t forget/I’m not the man my actions would suggest/A little boy, I’m tied to you/I fell apart, that’s what I always do”, ARREPIANTE) mantiveram o pique lá em cima, guitarras apitando, alto, alto, como que nos lembrando que um dos maiores méritos do rock ( e das gravações de rock) dos anos 1990 é justamente saber conciliar barulho bom e sacadas melódico/harmônicas absolutamente viciantes. De bônus, os Whigs tem suingue, como se por trás de toda aquela muralha de três guitarras (tanto que mal se ouvia  as intervenções do violino) o baixo (deliciosamente alto) travasse uma grande luta para garantir o coeficiente “pista” do show.

E a voz de Dulli que merece um pequeno parágrafo só pra ela: aos 49 anos, seu timbre adquiriu aquela sabedoria típica dos bluesmen, como se exalasse um sentimento muito genuíno, sem, no entanto, perder uma potência jovial, menos angustiada e mais lasciva, que sempre foi a emissão correta para suas canções. E isso fica claríssimo quando ele canta “When Two Parted” ao vivo: uma das músicas mais climáticas e sexys da banda, sua garganta ainda é capaz de nos transportar para aqueles versos (e aquele “Baby…“) tão concretos quanto um relacionamento fadado ao fracasso…

Baby, I see you’ve made yourself all sick again
Didn’t I do a good job of pretending
You’re saying that the victim doesn’t want it to end
Good, I get to dress up and play the assassin again
It’s my favorite
It’s got personality

I should have seen this shit coming down the hall
Every night I spent in that bed with you facing the wall
If I could have only once heard you scream
To feel you were alive
Instead of watching you abandoning yourself

É uma canção estratégica dentro do show, o cigarro entre a primeira e a segunda. E a volta foi ainda mais “fogo na gasolina”, não apenas por “Going To Town” (I’ll get the car/You get the match/And gasoline “) mas por algumas das melhores explosões que os caras colecionaram em disco:  “Turn On The Water”, inesquecível, com direito ao diálogo edipiano de “The End” dos Doors; “Uptown Again”; as melhores cantadas em forma de música, que são “John The Baptist”( “Hey, welcome home, I got a little wine/Some marvin gayeCome on and taste me/Come on and take me, I’m yours/ Let´s Get it on!!“, com os presentes indo ao delírio na última frase) e “Something Hot” (“I got your phone number, baby I’ll call you sometime/I think I might, be out tonight/Maybe give you a ride“); uma “Gentleman” absolutamente inesquecível, ensurdecedora, e “My Enemy”, para finalizar com o pique lá em cima. 

Apesar de belos, os passeios pelo repertório alheio, como “Tusk” do Fleetwood Mac e uma climática “Modern Love” de Bowie poderiam ser facilmente substituídos por canções próprias (“Crazy”, “66″, “Miles iz Ded”…). Mas trata-se de uma tradição do grupo: se apossar de material alheio, como parte de um quebra cabeça (de peças que vão de pilhagens maravilhosas ao R & B contemporâneo  até o rock clássico) cujo desenho completo são eles mesmos, o Afghan Whigs. Sendo assim, até queria escutar por exemplo a linda versão de “Lovecrimes“, de Frank Ocean.

Mas, na boa? Até ali a apresentação já tava entrando com folga naquela listinha “shows da vida”.


 

Mas teve o final do show, ah, o final do show. O final do show foi um bloquinho todo especial, onde a banda emendou as três canções finais de seu disco mais bonito, mais noir, digamos assim. O encerramento de “Black Love”, com a tríade “Bulletproof”, “Summer´s Kiss” e “Faded” foi reprisada no bis e, sinceramente, foi um dos momentos mais intensos que já vi num palco.

Porque essas são canções que parecem saídas de um sonho, suado, intenso, que Dulli psicografou no papel.  São canções de redenção,  como se depois de se assumir como um tarado, um maníaco, depois de tanta dor disfarçada de álcool, de tanto sexo maquiado de amor, Dulli, assume que, no final das contas, é só um menino malvado, que só queria um colo (ou um eterno verão) pra chamar de seu.

Quem nunca?

Did you feel the breeze?
My love
Summer’s kiss is over, baby
Over
Do you know the words?
Sing along with me
And put on your rose fur coat, baby
It’s 1973

My love, this dream I have each night
I stare into a blinding light
Alone, I stare

Demons, be gone
Away from me
And come on down to the corner
I got something i want you to see
The burning sun
Too hot for shade
Come lay down in the cool grass
With me, baby let’s watch that 
Summer fade

My love, this dream I have each night
I stare into a blinding light
Alone, I stare
So sweet
This dream is not a dream
I wake with it
Inside of me
Alone, I swear

Apesar de uma espetacular versão de “Bulletproof” (um dos melhores refrões dos Whigs), e de um encerramento épico, arrepiante, de lavar a alma, com “Faded” (com direito à citação de “People Get Ready”, do gênio Curtis Mayfield), foi durante “Summer´s Kiss”,  que perdi a linha.

Porque não estava esperando ela.

Porque é uma das canções da minha vida.

Porque nunca acreditei que pudesse escutar ela ali, na minha frente.

Depois de uma tapas meio incrédulos ( e talvez um pouco fortes demais) no Capelas (desculpa, garoto!), berrei, gritei, chorei e tive por um momento a certeza de que Dulli tava ali, olhando pra mim, ORANDO por mim, completando o círculo: o cara é meu pastor, pervertido que só, e o que me faltava, não falta mais. Assisti Afghan Whigs ao vivo: amém, amém.

(E missa igual a essa, podia ter todo dia)

Black Sabbath se despede do Brasil com missa metal em Belo Horizonte

Crédito da foto: Marcus Desimoni/Uol

Reportagem publicada pelo UOL, em 16/10/2013

De uns anos para cá, Belo Horizonte entrou no mapa das grandes atrações gringas de heavy metal, recebendo nomes como Iron Maiden e Slayer para apresentações antológicas. E quando o Black Sabbath confirmou que sua turnê brasileira passaria pela capital mineira o ciclo se fechou. “Sabbath em BH” não foi apenas uma rima boba e útil. “Vim tomar benção”, resumiu Bozó, ex-vocalista do Overdose, uma das bandas pioneiras do gênero em Minas Gerais. “É inexplicável, de tão importante que esta noite é”.

O Sabbath entrou no palco às 21h05 (dez minutos antes do previsto) desta terça-feira (15) com uma espécie de sirene procedida por acordes arrastados que iniciam “War Pigs”. A presença do trio original do Sabbath impressionou: desde aqueles, como Bozó, que provavelmente passaram a adolescência “traficando” vinis raros da banda para moldar sua própria música, como aqueles muito jovens que não desgrudavam dos celulares mais modernos, enquadrando cada movimento que os britânicos faziam lá em cima.

Em muitos momentos, a atenção ficou fragmentada: capturou-se o baixo potente e sólido de Geezer Buttler, empapuçado de efeitos nos segundos finais de “Behind The Wall Of Sleep”, iniciando uma inesquecível “N.I.B.” (um dos momentos mais histéricos do show). Impressionou a sobriedade de Tony Iommi, desfilando uma quantidade de riffs absurdos. E, claro, magnetizou a presença de Ozzy, que parecia uma Linda Blair sênior, com maquiagem borrada nos olhos, saltado direto dos pôsteres de “O Exorcista”, com o olhar meio débil, meio insano, comandando palavras de ordem ao público.

O Sabbath nasceu justamente da capacidade de causar espanto, assim como a atração do público por filmes de terror inspiraram Geezer Buttler a moldar o som do grupo. Funciona, até hoje. “Black Sabbath”, a canção que com três notas inventou todo um gênero e conseguiu quase silenciar as 20.000 pessoas presentes na Esplanada do Mineirão.

Escutar o Sabbath ao vivo foi uma experiência para tímpanos preparados, já que o som estava impressionantemente alto e nítido. Porradas como “Rat Salad” e a recente “God Is Dead?” ( junto com “Age of Reason” e “End of the Beginning”, as únicas do ótimo ultimo disco, “13″, lançado este ano) impressionavam pela potência que saía dos músicos. Buttler e Iommi pareciam em ótima forma, visualmente, mesmo o último tendo superado um câncer recentemente. Ozzy não passou incólume pelo tempo –mas talvez seja justamente esse um de seus charmes. Como um avô (até o jeito dele arrumar a calça parecia de um senhor) movido a espírito adolescente, o vocalista não parou: pulava, batia palmas, pedia barulho do público.

Em muitos momentos, o público obedeceu, e enlouqueceu com a banda, especialmente na primeira metade do show, nas execuções de “Into The Void”, “Under The Sun” e “Snowblind”. Esta última, cheia de referências à cocaína, mereceu até ser ilustrada no telão por cenas do clássico “Scarface”. Na segunda metade, o público visivelmente deu uma arrefecida, mostrando alguns sinais de cansaço. Talvez possa se culpar também a enorme pista premium que ocupava um espaço precioso –poderia ser diminuída a favor da imensa e animada multidão que se aglomerava atrás das grades. Essa baixada de bola até gerou alguns olhares meio tortos e despistados do vocalista no palco, perceptíveis durante “Fairies Wear Boots”.

Nada que não pudesse ser corrigido com dois clássicos imortais do grupo, as obrigatórias “Iron Man” e “Paranoid”. A primeira gerou um coro altíssimo, com a audiência cantando o riff de guitarra. Antes de puxar a segunda, Iommi perversamente tocou o início de “Sabbath Bloody Sabbath”, lembrando que um caminhão de grandes canções da banda ficou de fora do set list. Foi “Paranoid” mesmo que encerrou a apresentação, depois de duas horas, em pique acelerado e frenético, mesmo sendo notável o fato de que algumas canções diminuíram os andamentos originais. Natural: as canções não envelheceram nada; os músicos, sim.


Abertura
A noite começou com o Megadeth que, ciente do tempo reduzido que teria, não jogou conversa fora. Dave Mustaine mandou um “olá” para a plateia quase no final da apresentação. Antes disso, cravaram 55 minutos de show com doses barulhentas de seu tradicional thrash metal, competente, mas musicalmente com pouco brilho.

Não que a maior parte do público tenha reclamado: hits como “Holy Wars” e “Symphony of Destruction” foram saudados com calor pelo público. Uma apresentação barulhenta que ajudou a lembrar para onde o som originalmente criado pelo Sabbath foi parar, ganhando em velocidade e técnica (o duelo entre guitarras correu solto), mas sem a mesma inspiração dos mestres.


Setlist do Black Sabbath em Belo Horizonte

“War Pigs”
“Into the Void”
“Under the Sun”
“Snowblind”
“Age of Reason”
“Black Sabbath”
“Behind the Wall of Sleep”
“N.I.B.”
“End of the Beginning”
“Fairies Wear Boots”
“Rat Salad”
“Iron Man”
“God Is Dead?”
“Dirty Women”
“Children of the Grave”
“Paranoid”