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PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES-Picassos Falsos em BH

 

 

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Estado de Minas em 12 de novembro de 2006
(Um dos melhores shows que já vi em Belo Horizonte, a passagem do Picassos Falsos por aqui rendeu também discussão sobre as heróicas tentativas de se criar um circuito off-mainstream por aqui, contornando as adversidades)
Quem aparecesse desavisado no Matriz na última sexta-feira, iria ganhar de brinde um show não anunciado do Picassos Falsos, que se apresentava na cidade depois de anos. A apresentação, espetacular, deixaria o visitante ainda mais satisfeito, mas com uma pulga atrás da orelha: “Como isso não foi noticiado?”. Na verdade foi, inclusive neste mesmo caderno que você tem agora em mãos. Algumas coisas é que mudaram.
A banda carioca seria a primeira grande atração do Festival Primavera Rock (a outra seria Dado Villa Lobos, ex-Legião Urbana), que reuniria em dois dias mais seis bandas, todas elas fruto da nova geração da música de BH. “Sempre fomos inconformados com o fato de BH ser uma das poucas grandes capitais que ainda não tinha um festival independente de destaque, mesmo tendo uma das melhores cenas do país”, justifica César Gilcevi, um dos organizadores do evento e baterista da banda Carolina Diz. “Já vínhamos conversando há cerca de um ano e meio sobre a possibilidade de fazer um festival que mostrasse a nova cara do rock para a própria cidade”.
Uma iniciativa bastante louvável e, um olhar mais clínico detectaria, corajosa. O problema apareceu no local onde seria realizado o Primavera Rock, a Casa Do Estudante, mantida pelo Diretório Central dos Estudantes da PUC-MG.Segundo César, a produção do festival alugou o espaço para os dois dias de festival, mas foram avisados na quinta-feira à noite que a casa estava interditada pela prefeitura de BH. “No começo, achamos que era uma piada e só acreditamos quando vimos o lacre de interdição”.
Motivo? Falta de alvará. A questão é que, segundo apuração posterior da produção do festival, há meses o DCE estava notificado sobre a situação irregular – e não havia informado este dado. “Eles já haviam sido multados e re-notificados sobre a falta de alvará; todos os prazos já estavam vencidos e eles sabiam há meses de que poderiam ser interditados a qualquer momento”, garante César.
Gustavo Costa, gestor da Casa, afirma que a produção do Primavera Rock teria sido avisada da situação desde a quarta-feira, e que toparam tentar a sorte através de uma liminar que poderia permitir a realização do evento. A liminar não saiu. O resultado foi uma substituição, de última hora do local dos shows apenas das atrações “de fora” e obviamente, uma série de prejuízos e danos que estão a procura de alguém para serem pagos.
Festival mesmo, não teve. Mais do que saber onde está a verdade, a situação é reflexo de uma outra , mais triste: a dificuldade em se promover eventos culturais em BH, sem o apoio das leis de incentivo e das grandes corporações, seja pelo assumido despreparo de locais como a Casa Do Estudante, seja pelo pouco apoio do poder público.
Parece certo que a iniciativa da prefeitura, depois de meses de ameaça, foi provavelmente motivada pela larga exposição que o evento acabou conquistando na mídia. Eles estavam escudados por uma justificativa imprescindível, a segurança pública. Mas, segundo Gustavo, “seria viável que o município interferisse no sentido de facilitar o atendimento a esta demanda que é cada vez mais latente”. Com essa história, que envolve irresponsabilidade de uns e alheamento de outros, fica ainda mais nítida a sensação de isolamento que a cidade vem sofrendo. Além de perder a chance de aparecer em uma das páginas mais importantes da cultura nacional recente: a criação de uma nova música independente do velho esquemão “gravadora -jabá- público alienado”. Para as bandas e parte do público, essa ficha já parece ter caído.Faltam os outros.

 

Festa histórica com gente esquisita: Curitiba Rock Festival 2005

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Hoje em Dia, em 29/09/2005

Apesar de problemas sérios envolvendo a organização do evento – como o cancelamento em cima da hora dos shows de Lobão e Hurtmold-, o Curitiba Rock Festival , realizado no último final de semana na capital paranaense, foi um belo pontapé inicial para a inacreditável maratona sonora que invade o Brasil neste segundo semestre. Nos próximos meses ainda desembarcam nomes como Pearl Jam, Iggy Pop And The Stooges, Wilco, Flaming Lips, Television, Rolling Stones…e mais muitos nomes de peso a acrescentar nesta inacreditável lista.

Mas o Curitiba Rock Festival tem grandes chances de virar o xodó do público que acompanhar tudo isso. Não foi apenas um festival, foi uma autêntica celebração indie, uma turma que, no fim das contas, celebra a si mesma e a seus óculos, seus casaquinhos, seus penteados, seus discos do Pavement, seus All-Star…E Curitiba preenche perfeitamente o imaginário indie de “terra prometida”: eternamente banhada em tons cinzentos do céu ameaçador de tempestades( e não fica só na ameaça: choveu o domingo inteiro) ; lindos parques urbanos e uma melancolia natural que paira sob suas ruas calmas, onde andando poucos quarteirões do Centro Cívico já se encontram ruas de paralelepípedos e cassa moldadas pela colonização européia do sul do país. Para qualquer um que tenha em seu HD cerebral a inglesa Manchester e Morrissey cantando “everyday is like sunday, everyday is silent and grey”, é uma filial e tanto.

E como qualquer grande festa, os problemas iniciais acabam se tornando motivos a serem celebrados. A primeira baixa foi a mudança do evento: da majestosa Pedreira Paulo Leminski- um espaço a céu aberto circundado por uma mata e um lago, com capacidade para mais de 10 mil pessoas- fomos transportados para o modestíssimo Master Hall, que como outras casas no país, de pomposo só carrega o ”hall” que o batiza. Numa comparação, era o Lapa Multishow local, com capacidade para no máximo 4 mil pessoas e olhe lá. O motivo maior para a mudança seria a baixa venda de ingressos a poucas semanas do festival. Não que Weezer , Mercury Rev e Raveonettes, as estrelas maiores desta edição fossem incapazes de carregar um grande público para a Pedreira. Mas uma desastrosa conjunção de fatores, como o anúncio de outros dois grandes festivais de grande porte para o segundo semestre, como o Tim e o Claro Q É Rock ( sem contar o eletrônico Nokia Trends, que aconteceu no mesmo fim de semana do CRF), acabou por esvaziar os bolsos e o ânimo do povo.

Loser manos ( os originais) a vontade no Brasil

Mas não precisava ser muito esperto para fazer o raciocínio: a possibilidade de assistir a essas bandas (nenhuma delas com grande vocação para arenas, verdade seja dita), em um palco bem menor e público idem, valorizava muito a viagem. E Rivers Cuomo, líder do Weezer, a banda amada por 11 entre 10 indies e mentor fashion /intelectual dos mesmos pareceu sacar isso no momento em que entrou no palco. O DJ responsável por animar o público entre a maratona dos shows entendeu direitinho a histórica conjunção destes fatores .Logo após o ótimo show dos cariocas Acabou La Tequila ,que driblaram a ansiedade do público pela banda principal com boas novas como “Rádio Jabá” e a one hit wonder “Biscoito”, o toca discos preparou a moçada com “KKK Took My Baby Away” dos Ramones e “Teenage Kicks” dos Undertones, na seqüência. Duas bandas que passaram para o Weezer, décadas depois, o bastão do “pop-romântico-loser barulhento”. Pouco depois, “Here Comes Your Man” dos Pixies refrescando na memória de todos o monumental show assistido na edição do ano passado do Curitiba Rock Festival, e criando instantaneamente paralelos naturalmente existentes.

Feita a cama, era só se espremer entre os mais de três mil presentes na platéia, que depois de quase quarenta minutos de espera já não agüentava mais assistir aquele entra-entra de roadies no palco. As pernas já estavam cedendo quando, finalmente a banda deu as caras- por falar em caras, onde foi parar o óculos do Rivers Cuomo, aquele quadradinho de aro preto , imitado por quase 60% da população presente no Master Hall? Provavelmente no mesmo lugar em que a sanidade e a habitual timidez dos indies foram quando o Weezer abriu os trabalhos com “My Name Is Jonas”, canção que também abre os primeiro disco da banda, carinhosamente conhecido como “Blue Álbum”. Aliás , todas as faixas de abertura de seus discos posteriores ( com exceção do “Maladroit”, cujo repertório inteiro foi ignorado, maldade com pepitas como “Keep Fishin”) foram executadas. Mas elas foram apenas alguns dos pontos altos de um show que teve apenas pontos altos. Fica a critério do fã escolher qual imagem vai levar para casa e não esquecer jamais: o momento solo de Cuomo empunhando um violão no mezanino do Master Hall, rodeado de fãs e esperando o corinho da platéia, lá em embaixo, em “Island In The Sun”; a troca de posições em “Photograph”, onde o baterista Pat Wilson assumiu os vocais, o cover de “Big me” dos Foo Fighters. Pelo menos um eu tenho certeza do que vai guardar na memória: o guri que foi convidado pela banda e executou (razoavelmente bem!) a clássica “Undone (The Sweeter Song)” ao violão, tipo membro convidado. Eu fico com o coro ensurdecedor durante as favoritas “Say Isn´t So” e “The Good Life” e a certeza de ter assistido pouquíssimos shows tão intensos e perfeitos na vida. A banda também, como assumiu depois em seu website oficial e nos sorrisos distribuídos durante todo o show. Entretenimento em estado bruto, quem falou em loser mesmo?

Só se foram os integrantes do Charme Chulo que fizeram horas antes uma apresentação toda calcada naqueles clichês do rock brasileiro anos 80- vocalista metido a poeta, sonoridade pós punk, muita pose e pouco conteúdo… Charme chulo e chato ( viva Leminski, um dos grandes poetas da terra!). Melhor sorte teve o cearense Cidadão Instigado, que entre o brega e o experimental levantou os ( muitos, claro) fãs de Sonic Youth presentes, principalmente nos momentos em que a guitarra soava como um ganso sendo violentado- tipo experimental, manja? Melhor mesmo quando as composições da banda apareciam, de leve acento regional e despreocupadas em agradar o público a qualquer custo. Mal que sofre os paulistanos do Biônica- assim como muitas bandas da cena indie- que pretende conseguir alguma moral entre a moçada com quilos de barulho e histerismo feminino e com isso também esconder suas composições fracas. Mas ou menos o que deu fama ao (quem?) Cansei De Ser Sexy.

A migração secreta(da música para arte-ui!)

Mas o segundo dia redimiu a ala independente do festival, turma que, diga-se de passagem, é também a razão de existir eventos como o Curitiba Rock Festival ( alô produtores mineiros!). A abertura, com os locais Black Maria não seria a responsável por isso, com sua desgastada mistura de rock com latinidades. O suingue só foi correr solto mesmo com o Móveis Coloniais de Acaju. Se os políticos soubessem da existência de uma banda como essa na cidade, a festa em Brasília seria ainda maior. O show foi absolutamente brilhante, adjetivo que não cabe em seu disco de estréia, produzido por Rafael Ramos, o padrinho de Pitty e Dead Fish. Mas o ex-Baba Cósmico mostrou que sabe das coisas ao perceber nos nove (!) integrantes do grupo um profissionalismo e senso de diversão raros na oportunamente carrancuda cena indie nacional. A banda fez tudo certo para mostrar seu ska/big band em um cenário tão deslocado quanto a cinzenta e chuvosa noite de Curitiba. Figurino exótico, com todos no grupo exibindo elegantes smokings, que depois os identificavam facilmente no meio da fauna uniformizada em jeans e camisetas descoladas. Um cover que todo mundo sabia cantar, fazendo o povo pipocar ao som de “…se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar”. Um dinamismo infernal no palco, com os integrantes revezando espaços o tempo inteiro, prendendo a atenção de qualquer mortal mais desatento. Se existisse alguém já morto, sem problemas: os caras puxaram uma roda no meio da platéia, botando muito indie para brincar de ciranda. De quebra, bons músicos executando boas canções, como o proto-hit “Seria O Rolex?”. Fortíssimo candidato a melhor show da noite, principalmente se levarmos em conta que a apresentação de Karine Alexandrino, na seqüência, foi um desastre. Dispensando uma banda tradicional, a cearense confiou apenas em um DJ , que soltava bases pré-gravadas , e em seu “charme”, sua voz infantil meio forçada , cinta-liga e pernas de fora. O resultado ficou entre o curioso e o constrangedor, com o público esvaziando lentamente o local no decorrer da apresentação, provavelmente assustados com aquela bizarra mistura de Xuxa com Peaches . Sem os berros e o teatro todo, Karine funciona melhor.Seus discos são a prova disso.

Ao Los Diaños, só bastou lamentar o fato de encararem o público depois dos incendiários Movéis Coloniais de Acaju. Sua mistura saltitante de jazz com hardcore não animou muita gente, não. Aliás ânimo era o que mais faltava naquele começo de noite de domingo: a Patife Band, saída direta dos porões dos anos 80, também não conseguiu entusiasmar os presentes, apesar do bom show. Respondendo pela parte “experimental” do CRF, o grupo levou estranheza e atonalidade onde antes existia sopros e metais. Paulo Barnabé honrou o sobrenome, capitaneando um grupo de difícil digestão: letras mezzo poéticas, cacetadas hardcore lidas numa partitura, andamentos completamente esquisitos…o público tentava entender e assistia tudo respeitosamente. A conhecida “Corredor Polonês” colocou um ponto final na apresentação. Por falar em ponto final, o show do Ultramen ganhou um cedo demais. Depois de cinco músicas executadas sem o pique os caracteriza, o combo gaúcho teve de abreviar seu repertório a pedido da produção. Nenhuma explicação oficial foi dada, o que acabou explicitando ainda mais os erros cometidos pela produção do festival.

O Raveonettes veio de brinde, mas acabou fazendo uma apresentação corretíssima e barulhenta, dentro de sua limitação “hype de uns truques só”. Pois bem, os truques foram apresentados (“The Great Love Sound”, “Attack Of Ghost Riders”) e o restante foi assistido com alguma empolgação. Suficiente aliás para esquentar os ânimos dinamarqueses da vocalista Sharin Foo ( “Nico nórdica!” gritava um gaiato durante todo o show), que acabou pulando do palco para a platéia e distribuindo calorosos beijinhos e abraços na moçada. Decepcionante para quem estava no meio da pista e perdeu a chance de tirar uma casquinha da deusa – a melhor coisa a sair de terras dinamarquesas desde os biscoitos amanteigados e o futebol de Michael Laudrup.

Depois do barulho, o silêncio. Era a vez da apresentação mais esperada da noite, o Mercury Rev, responsável por um dos discos mais belos da década passada, “Deserter Songs”. Muita gente parecia não saber disso, já que a lotação do Master Hall já tinha diminuído bastante quando um telão, no meio do palco, foi ligado. No início exibiram uma seqüência rápida de imagens contemplativas intercaladas por capas de discos clássicos – a idéia era “jogar para a galera”, como que buscando uma cumplicidade imediata com o público. Deu certo: pareciam gritos de torcida quando aparecia um disco de Iggy Pop ou do Sonic Youth no telão. Bem vindo ao mundo do Mercury Ver, era essa a senha. “The Secret Song”, grande música tirada do último disco da banda, “The Secret Migration” abriu a hipnose que iria enfeitiçar o público por quase duas horas ainda. No telão, belas imagens complementares as ambiências criadas pela música do Rev- pássaros, golfinhos, a natureza humana e extra –terrena… E uma coleção de frases notórias – de Kerouac a Yoda – que iam piscando no vídeo e serviam quase como tradução instantânea para as letras cantadas pelo vocalista Johnattan Devue. Aliás, ele é um show a parte: seu balé no palco faria Freddie Mercury o mais másculo dos homens! Entornando garras de vinho, o vocalista encontrou conforto no público brasileiro para exibir suas coreografias e movimentos ora desconcertantes ora hilários mesmo, tamanha a afetação.

Deixando o cinismo e a ironia de lado, foi bonito pacas. Um show para se assistir deitado- com um ácido na boca e a cabeça traçando comparações com 1968, Pink Floyd, psicodelia…E mais: foi daqueles momentos onde a música ultrapassa conceitos como entretenimento e alcança o tão desejado status de arte, movendo sentimentos, trazendo questionamentos adormecidos ou ainda inéditos para as pessoas. O repertório apresentado não teve maiores destaques, parecia na verdade uma única peça musical dividia em movimentos. Qualquer semelhança com rock progressivo não é mera coincidência. É aquela história: se seu tiozão assistiu ao Gênesis em solo tupiniquim nos anos 70, e ficava te alugando até hoje, com esta apresentação do Mercury Ver já dá para tirar uma onda com as próximas gerações . Ah, mas a banda cover de Peter Gabriel e Phil Collins vai se apresentar aqui em Belo Horizonte neste fim de semana, né?

Não é a toa que, mesmo com todos os problemas apresentados, o Curitiba Rock Festival fez história novamente.

Racionais MC´s na transversal do tempo

Reportagem publicada no jornal Hoje Em Dia, em 01/12/2004

(Um dos shows mais interessantes de todos: Racionais MC´s, com o então recém lançado, hoje clássico, “Nada Como Um Dia Depois De Outro Dia”. Apresentação marcada para as 23h. Subiram no palco quase às 03h…)

“Tem que fortalecer, o rap tem que fortalecer”. Não era um pedido, ou discurso. O que o autor da frase acima proferia era uma ordem, uma conclusão lógica de um pensamento que segundos antes tinha feito referência a todos os pilares básicos da construção social: a família, a religião, a moradia, a segurança.

Era o começo do fim: com os primeiros versos de “O Homem Na Estrada”, o locutor se despedia de uma platéia absurdamente em silêncio depois de quase duas horas de um estranho misto de concentração liturgica e messianismo pop. O autor da frase é Mano Brown, o maior letrista da música popular brasileira nos últimos dez, quinze, vinte anos…Um textos mais ricos e impactantes do Brasil recente ,cujos maiores achados dialogam pau a pau com outras grandes obras musicais de contestação social/política nacional.

Narrador em carne viva, cuja acidez fora percebida e tornada artigo de primeira necessidade em 97, quando o grupo que comanda soltou nas ruas da classe média “Sobrevivendo No Inferno”, autêntico manual da selva marginalizada pelo neoliberalismo global, cortesia do governo Fernando Henrique Cardoso. A partir dali encurtaram-se as distâncias entre o grande público e uma outra realidade baseada em fatos reais . O trabalho dos paulistas virou grife para “mauricinhos” abastados ,onde possuir um exemplar do disco garantia um brevê para circular nas ruas ;fetiche acadêmico para aqueles em busca de uma bela tese sobre os “excluídos” da sociedade, etc.

Impulsionou a produção do rap brasileiro focalizado na crítica social, abrindo alas para que novos nomes como Sabotage e Xis não fossem recebidos como corpos estranhos dentro da grande mídia. Então o rap hoje se faz palatável, deglutível para farto consumo de quem antes se situava como alvo- de cor e de situação- e que na semana passada semi-lotou o Lapa Multishow em busca dos poéticos fragmentos de uma realidade que só poderia, a princípio, ser conhecida a distância, no conforto do som no carro, embalando pesquisas na Internet.

Agora os Racionais já não são referência única. Nos últimos dois anos, enquanto os paulistas lançavam “Nada Como Um dia Após O Outro”  o demorado sucessor de “Sobrevivendo…” , já se destacava uma outra solução vigente para um gênero em busca da batida perfeita com Marcelo D2 , num ritual cujo profissionalismo e (saudáveis) tendências comerciais não encontram rima com a força bruta dos Racionais. Ou até mesmo um abusado outro lado da moeda representado por Ramon Moreno, cuja alcunha De Leve desafiava com marra a validade do discurso-burocrático da “violência-periferia-racismo” tão explícito em Mano Brown , Eddy Rock, Ice Blue e KL Jay em seu segundo disco “O Estilo Foda-se”.

Um desfecho que se apresentava como uma espécie de defesa até, a declarações equivocadas dos paulistas( “O Ronaldinho tá de Ferrari? Tem que seqüestrar pra acabar com essa putaria.”) e posturas que superaram a fina linha entre a defesa e o ataque gratuito, preconceituoso e ignorante. Hoje, a cena é outra, mais repleta de personagens coadjuvantes e sem saber quem protagoniza tudo. Reflexo talvez da lógica do mundo pop, onde demorar cinco anos para lançar um novo trabalho pode sair caro demais.

No palco do Lapa Multishow, boa parte destes embates se tornaram visíveis: a postura simpática e quase sorridente de um Mano Brown que na mesma BH foi acusado de incentivar o racismo durante uma apresentação, e que agora discursava contra o preconceito e a violência, indo de encontro com parte do novo repertório, onde fala-se até em um “Estilo Cachorro”, pautado basicamente na diversão sexual entre manos e minas, sem maiores julgamentos morais. Mas que volta e ainda encontra força suficiente para passar um pito na cena rapper local e para retomar a missão de que há muita história para ser contada ainda.

O rap tem fortalecer, ordena Brown. Mas como? Para onde? Em plena metamorfose, é possível que ele não saiba responder. É o fim do começo e tudo mudou :já se passaram sete anos e ainda não se sabe ao certo se os Racionais chegaram até onde poderiam – e queriam –chegar, questão essa que pode ser amplificada a todo rap nacional. E talvez seja esse questionamento que encerre uma época onde o rap era novidade , uma alternativa ao padrão. Já não é mais. Mas a resposta para a questão acima pode ditar os rumos para o gênero nos próximos anos. Vai valer a pena esperar, Racionais capítulo 5, versículo próximo.