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O Fausto que fez um pacto com o escracho

Um pequeno sol de bolso

que não propriamente ilumina

mas durante seu percurso

dissipa a neblina

que impede o outro sol, importátil,

de revelar sem distorção

dura, doída, suportável,

a humana condição.”

(Paulo Henriques Britto.  “Para um monumento ao antidepressivo”. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.63)

 

Quando brindamos ontem, eu, Terence e James, a passagem do Fausto, falamos rapidamente sobre a importância e o brilhantismo dele e da trupe que, evidentemente, comandava (“Ele era o Lennon e o McCartney do Hermes e Renato”, alguém soltou). Traçamos um panorama meio sombrio da geração que, de certa forma é a dele, já que num campo semântico de época, seu nome não soa estranho entre os de Chorão, Peu, Champignon. Não estendemos muito o assunto, talvez pelo impacto da notícia que ainda circulava duvidosa nas redes ou pela sumarização meio completa/complexa e simples do Terence: “No fundo, no fundo, a gente nunca sabe como é a vida das pessoas”, ou algo (sabiamente) do tipo.

A gente nunca sabe mesmo. Num período especialmente escuro da minha vida, Hermes e Renato foi meu pequeno sol de bolso que nascia da tela ainda relevante da MTV, já no final do dia, antes de dormir. Era muita coisa acontecendo na vida (filha-trabalho-faculdade) que eu tentava entender através dos meus dezenove anos e muitas sessões de terapia. Fugia das prescrições tarja-preta que minha simpática doutora me recomendava, porque sabia ter onde me esconder no final de  cada difícil, por vezes dificílimo, dia.

Aqueles caras dissipavam a neblina para mim. Era a Teoria do Alívio (“Como o humor questiona as exigências sociais convencionais, ele pode ser encarado como um fornecedor de alívio da restrição que impõem as exigências”), um dos eixos formatadores e conceituais do humor, na sua prática, mais profilática do que nunca.


 

Pouco foi falado ontem, mas eu quase garanto que eles, meus comparsas,  assim como eu, passaram parte da manhã buscando algumas pérolas do grupo no You Tube.  Até aposto em qual foi o primeiro… E foi simplesmente espetacular abrir as redes sociais hoje e coletar um festival de melhores momentos do Hermes e Renato. A morte do Fausto foi “celebrada” com o que ele ofereceu de melhor, ou seja, o melhor humor brasileiro pós-sei-lá-o-que que tivemos (“Trapalhões”? “Casseta e Planeta”?), do fim dos anos 1990 pra cá. É até curioso pensar que o Fausto pediu a conta no mesmo dia que outro gigante do gênero e seguramente um de seus mestres, Mussum (para seguir concatenando, um pré-Away, o representante do humor meio non-sense), pediu a dele, há 20 anos atrás.

Curioso pensar também que talvez a grande marca do H & R fosse o verniz “do-it-yourself” que eles tentavam manter a todo custo- não é à toa que para muitos a melhor fase dos caras era a inicial; ou pelo menos a fase dourada terminou a partir do momento que eles “sofisticaram” demais. Exageros, claro, uma boa produção não faz mal para ninguém- e os caras eram bons nisso desde as primeiras tentativas em Petrópolis. Mas a grande sacada desses punks era a capacidade que eles tinham de colocar em prática e funcionando-alive and kicking- os desejos de boa parte da classe média brasileira amamentada pela idiotia da mídia em cuspir de volta o lixo todo, processar aquelas propagandas, filmes, CULTURA POP enfim, que tomávamos junto com o toddy da tarde, em produtos maravilhosamente bem resolvidos na sua tosquidão.

Não se tratava de uma fórmula nova, claro. Mas era uma fórmula que funcionava muito bem para uma geração que teve a TV como babá e totem de subjetivação importantíssimo, a ponto de sonhar muitas vezes em fazer parte dela, como uns guris cariocas imbecilóides pareciam sonhar.

É aí que me lembro quando,  junto com os mesmos Terence e James de ontem, fomos receber um prêmio em São Paulo, pelos idos de 2005 (cacete, quase uma década!). A cerimônia, apesar de voltada à música independente, conseguia reunir no espaço bacanudo gente de grande importância na cultura brasileira, tipo, sei lá, Tom Zé.

Mas ninguém foi mais aplaudido, saudado, ovacionado, de forma quase histérica até que alguns dos Hermes e Renato que subiram ao palco para entregar um dos prêmios.

Porque muita gente se sentia “vingada” por aqueles caras. Eram a representação mais nítida, do momento, de uma possibilidade de vitória jovem, “alternativa” e “independente” dentro do mercadão. Uns malucos que enviavam fitas de VHS tosquíssimas para um canal de televisão e hoje eram a fina (?) flor(?) do humor nacional. E era  humor cosmopolita, insano, e ao mesmo tempo muito próximo da gente. Como se Beavis and Butthead finalmente entrassem naquele templo que era a televisãozinha deles, e passassem a comandar geral a programação.

Era bom demais, mesmo.

E se alguns pensadores (alô Jameson!) falam de uma certa era do pastiche que vivemos, eles têm em H & R um farto material de estudo: tudo ali era retrô, do próprio nome e do quadro que os batizou, até os zilhões de programas dentro de programas que eles criaram. Só que ao invés de sofrerem por causa dessa falta de, digamos, identidade, desse falar através do outro, eles preferiram o escracho, simples e absoluto. E inteligentíssimo.

Engraçado também é pensar que o bando reinou sozinho durante um bom tempo. E que foram, seguramente, pioneiros nessa onda stand-up ( já passou?) que modelou muito do mainstream midiático nacional nos últimos anos. A última turma de adictos televisivos ,que não segurou a peteca na época da internet, onde tantos estão aí, vencendo.

Talvez porque esse suporte, a televisão, fosse mesmo no final das contas a grande musa dos caras. E, benza o deus dos sátiros, a internet tá aí, um arquivão maravilhoso dos tesouros deles. (Enquanto escrevo “ouço” episódios como se fosse rádio. Que texto, que “redação” eles tinham!).


 

O que não diminui em nada o impacto dos caras, óbvio. Não sei se já escrevi, mas H & R, além de imensamente criativo, era INTELIGENTE demais da conta. Leram uma época como pouquíssimos leram, com uma precisão absurda.

E escreveram, claro, hiláriamente, uma época.

É difícil até lembrar o imenso glossário que eles deixaram: quem não tem um amigo que te chama de Proxeneta?  Ou o já clássico Joselito? Quem não conhece um capeta em forma de guri na vida real? Quem não quis pagar de fodão (ou de fodinha), tipo Mr Chocolate? “Um” Boça sempre esteve entre nós?

Alguém definiu melhor os deslumbrismos electro rock de alguns anos atrás que o Cansei de Ser Hype? Ou daquele clichê clássico do teatro intelectual? Ou as cretinices quase inerentes ao jornalismo? E quando o fôlego começou a encurtar, os caras foram direto ao ponto, sacaneando/homenageando a matriz superior, o cinema, com aquela maravilha chamada Tela Class.

São muitos, muitos, muitos, muitos exemplos. A galeria de personagens- e de, mais ainda, situações- é infindável. Os caras produziram muito, e erraram muito pouco, no saldo final.


 

Com a morte do Fausto, avivam-se essas lembranças para mim, e com elas uma vontade imensa de, sei lá, agradecer, celebrar, passar um dia todo em torno do que eles fizeram,como faço agora. Porque deixei de acompanhar há muito. Mas eles foram de uma importância muito grande para mim, tornando suportável a humana condição, e fazendo dela divina comédia.

E no fundo, sem querer parecer leviano, queria que o Fausto tivesse lido, com a destreza que tinha para me fazer rir, esse poema do Britto.

Fica de sugestão aos que ficam e homenagem a ele e aos que partem nesses, mineiramente, trens meio irônicos da vida.