Um domingo no parque com Ângela Rô Rô

Coluna Esquema Novo publicada no jornal Estado de Minas em 02/06/2009

O mundo está ao contrário ou ninguém reparou. Afinal um show de Ângela Rô Rô sob o sol de meio dia é algo, a princípio impensável e instransponível em qualquer circunstância. A música de Ângela é para ser tomada em doses e apagada em cinzeiros, um pequeno dicionário (des) amoroso, ministrado em pílulas doce amargas, envolta na névoa química e desiludida de qualquer madrugada. É o anti-Prozac, é a beleza que é triste, um pé na jaca moldado em métricas doídas e doidas, espalhadas ferozmente em obras primas como “Não Há Cabeça” e “Mares da Espanha”. Isso para ficar apenas no imponente primeiro álbum da cantora, lançado em 1979 e que soa como uma impressionante compilação de grandes canções.

Mas faltou um in em toda essa história: o de indispensável. Ângela merece como poucas- pouquíssimas- o título de diva. Diva zoneada, sem plásticas ou lifting-turbinado ali, somente os copos e os anos de batalha contra o tédio, contra o comum, contra a falta de paixão, contra ela mesma. Uma pós-Maysa, pré Cássia, que ainda adiantou Cazuza em alguns bons anos. Mas tem hora que jornalista não serve para nada. “Eu sou a madrinha da Amy Winehouse”, ela garante, entre as muitas doses de sabedoria pura, sem gelo, servidas para uma platéia que, consciente, sabia que o show era também, extra musical.

Aliás, platéia democrática, como tinha que ser. Afinal, as obras cotovelares de Rô Rô são para todos acima dos 18 anos independente de sexo, raça, nacionalidade ou clube de futebol… Barbies de academia portando cães no colo, moços delicados discretamente acompanhados de seus pares, travestis sem maquiagem e salto alto, menininhas flex e as reconhecíveis moças que “ficaram pra tia”, e claro, pais acompanhados de crianças, idosos sentados nas cadeiras, tudo muito civil e agradável como merece um evento em um domingo de muito sol no Parque Municipal.

Solar também é Ângela hoje em dia. Radiante, diria os menos cínicos, ela entra em cena portando uma garrafinha chique de água mineral (“Antigamente era champagne né?”, provocou logo de cara), vários quilos a menos depois de uma mudança drástica de vida. Fala, e muito, principalmente da natureza, da harmonia, das coisas do bem. Chegando aos sessenta anos, Ângela parece finalmente ter se encontrado” sã da loucura que havia em sermos nós “como escreveu Caetano lindamente para só ela cantar, em” Escândalo”, de 1981.

E para quem já arranhou toda a garganta atrás de alguma paz, gerando aquela voz que Deus e o diabo, curtidos em uísque e alcatrão, lhe deram, escuta-la cantar hoje em dia é uma benção. Em seu registro grave, lindo, forte, o carioquês marcado não desgruda do timbre nem na hora de interpretar, quase brincando, o “Ne Me Quitte Pas” velho de guerra. Isso para não falar das imortais entoadas por todos ali, entre o suor na testa e a lágrima nos olhos, como “Tola Foi Você” e a indefectível (e maravilhosa e perfeita e nostálgica e futurista e tantas coisas mais) “Amor Meu Grande Amor”. E ainda teve espaço para um belo dueto com Pedro Morais, que só desafinou diante das tiradas da cantora- mas aí a gente perdoa, porque para encarar o senso de humor “Rô Rô” sem cair nas cadeiras e responder a altura é tarefa hercúlea. A mulher é um poço de ironia e espirituosidade.

Escola pouco citada e pouco freqüentada, principalmente para a novíssima geração, Ângela Rô Rô, seu piano e seu extenso vocabulário dos amores perdidos deveria servir como dieta nutritiva para a anêmica idéia que o país tem do que é uma grande mulher fazer rock-blues-fossa e enfim MPB hoje em dia. E ao vivo, mostra que sob a luz do sol, escuras canções podem soar ainda mais belas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>