War On Drugs e o museu de grandes novidades

Um dos conceitos mais interessantes e possíveis para explicar nossa febre arquivista, nossa vontade conter passado, ou, simplificando, nossa tendência a rezar continuamente o credo do “nada se cria, tudo se copia” é a noção de “musealização”. O teórico alemão Andreas Huyssen toma emprestado essa ideia de um conterrâneo, Hermann Lubbe, no sentido de pensar que essa mentalidade não está mais confinada na instituição do museu; tem de fato infectado todas as zonas de nossa cultura e vida cotidiana, na nossa obsessão com comemorações, documentações e preservação.

Como nos diz Simon Reynolds, estamos numa espécie de auge comportamental (uma retromania) que vem crescendo desde os anos 1970 ( para alguns autores, aliás,  o marco último da era moderna), com crescimento da indústria de nostalgia, como suas modas retrô e seus revivals, entre o típico pastiche pós-modernista e a renovação de estilos clássicos. O foco mudou.

Contrastou-se as atitudes da segunda metade do século XX com a da primeira metade; temos hoje como mudança  uma preocupação com os presentes futuros de apresentar o passado. Para a maior parte  do século passado, o modernismo e modernização foram os guias: a ênfase era sobre traçar para a frente, a intenção, o foco, era no presente que parecia representar o mundo de amanhã hoje. ( Simon Reynolds, “Retromania”)

Ou, como simplificou Cazuza lá atrás: hoje é um museu, mas passível de grandes “novidades”. Gosto da ideia por ela tentar explicar, tanto nossa extrema dificuldade de se desprender do passado quanto pela habilidade de recuperarmos, dignificarmos até,  coisas interessantes que ficaram lá atrás, escondidos pela névoa temporal.

Em muitas horas isso nos dá conforto, nos lembra da capacidade de sonhar em luz do dia; de chapar de cara limpa; de sublimar o cotidiano entediante. 2014 chegou com bons exemplos, como isto e isto. Mas não escutei nada ainda este ano, até agora, que me emocionasse, me abrigasse tanto, quanto “Lost In The Dream”, do War On Drugs (poderia sacanear e frisar o fato de ser a ex-banda de Kurt Vile, mas, na boa, até piada indie tem limite).

Porque as vezes, um trabalho como esse ultrapassa dimensões espaço/tempo/sensoriais. No meio do trânsito, o War On Drugs me transporta para lugares que já estou/nunca estive/queria estar. Um bem vindo embaralhamento de sentidos num mundo tão pé no chão.  Com um bem vindo toque de romantismo, porque né? Sem romance não tem lance. Não sei nem descrever o que sinto quanto escuto os versos inciais do disco; é uma espécie de alívio, de submergir da realidade e alcançar o onírico, como um movimento contrário: acordar para dormir.

Well the comedown here was easy
Like the arrival of a new day
But a dream like this gets wasted without you
Under the pressure is where we are
Under the pressure, yea it’s where we are babe

E nesses sonhos onde me perco estão uma manhã cinza orvalhada com amigos, no Village; uma festa borrada de néon no meio do Madame Satã nos anos 1980, uma madrugada amena do interior mineiro; um dia amanhecendo numa janela de apartamento qualquer; um fim de tarde frio e solitário em um conjunto habitacional que poderia ter sido filmado por Kieslowiski; um pós-sexo outonal e vespertino; lugares, espaços, tempos, sobreposições imagéticas. Uau.

É um trabalho que chega em meio a uma certa nova onda revisionista da década de 1980 ( por que esses são anos que nunca vão, realmente embora? Tenho algumas teorias que talvez elabore mais tarde) e que, discretamente, parecem substituir o punk funk anguloso e dançante do período para uma moldura mais climática, introspectiva.

Mas, ao mesmo tempo, é uma sonoridade oceânica, gigantesca, big music. Os norte-americanos parecem escolher retrilhar um caminho entre o meio termo do pop da época com afluências mais climáticas, como se tomassem, finalmente, as drogas certas. Escuta-se Dylan reprocessado por Mike Scott, dos Waterboys; escuta-se a delicadeza noir do Blue Nile ( circa “Hats”); escuta-se o mood solar de Tom Petty, contrastado com os dedilhados lisérgicos do Cocteau Twins. E escuta-se aquela sonoridade típica dos videoclipes de arquivo que a VH1 (o reino máximo da musealização musical televisiva, com programas tipo “Old Is Cool”) insiste em passar, bandecas pouco colecionáveis mas que indiscutivelmente formataram certo registro reconhecível da época.

Curioso pensar que, o que antes poderia soar datadíssimo e pasteurizado, hoje se repagina com texturas de bom gosto e, repito, com nuances estranhamente confortáveis. O segredo parece mesmo ser equalizar essas duas direções, no melhor dos sentidos: afinal a bússola aventureira segue firme, sinalizando canções que , com suas longas passagens instrumentais, com seus 7, 8, 9, 10 minutos, ultrapassam, em muito o padrão pop perfeito.

E parece ser justamente essa a curtição: encontrar a levada certa, a ideia pegajosa e repeti-la, mantricamente, até causar um estado de hipnose que, para o ouvinte, tanto faz se aquilo que está saindo no ar tem 3 ou 30 minutos. Lindo exemplo desse torpor pop é  a tristonha”Eyes To The Wind”

As you set your eyes to the wind
And you see me pull away again
Haven’t lost it on a friend
I’m just bit run down here at the moment
Yeah, I’m all alone here, living in darkness

Pairando no éter, flutuam canções, ganchos deliciosos que martelam na cabeça e a transportam para lugares que parecem inéditos; só que não. Já estavam ali, perdidos em sonhos. E isso, além de bonito pra burro, é um baita mérito para um trivial disco pop.

Mais sobre museus e espaços aqui.

Uma opinião sobre “War On Drugs e o museu de grandes novidades”

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